
Ou, “Quero cunhar a próxima buzzword“.
Gilles Lipovetsky é conhecido, ou lembrado, em diferentes círculos, por diferentes trabalhos. Há quem discorra sobre Os tempos hipermodernos e a validade do enterro do pós-moderno, há os que dele se lembram pelo trabalho “meiado” com Elyette Roux falando de consumo de luxo.
Em A felicidade paradoxal (isbn 978-85-359-1093-3), Lipovetsky gasta mais de 400 páginas para mostrar que a gente entrou numa terceira era do capitalismo de consumo, saíndo do consumo desenfreado para um consumo ainda mais desesperado, mas com alguma consciênca. A primeira coisa que alguém que tenha crescido na periferia de São Paulo pergunta ao livro é: “mas quem é que consome desse jeito, ô, bacana?” Porque posso até ser eu, hoje, a consumir nesse nível — fui encontrar uma amiga na Cultura do Conjunto Nacional ontem e quase comprei seis livros. Saí comemorando o fato de ter resistido —, mas não é isso que acontece com o povo em geral.
Sendo a minha família classe média-caindo-pelas-tabelas, bem sei que o preço (sim, Lipovetsky até fala do consumo do produto mais barato, mas esse não é o barato dele — tu-dum, pssshhh!) é o fator determinante ainda e por tempo indeterminado. Essa pretensa riqueza ubíqua não chegou aqui. Mas, até aí, essa tal de internet ubíqua também não chegou, e isso não nos impede de falar o tempo todo nisso como se fosse uma verdade para 90% da população.
Mas alguns insights sobre consumo são bastante interessantes, a ponto de eu não jogar o livro pela janela. O consumo emocional e o consumo responsável que vêm se infiltrando na vida de todo mundo (do frango sem hormônio à sacola de feira para não pegar sacolinhas de plástico e qualquer coisa que seja eco ou socialmente responsável). Desde que não seja dez vezes mais caro, “craro”.
O livro tem uma primeira parte que tenta colocar tudo em uma perspectiva histórica dando uma pincelada e pinçado só o que interessa. Oras, ninguém esperava nada muito aprofundado, claro. A segunda parte faz um percurso que começa pela pobreza, passa pela “morte” do prazer dionisíaco (que cederia lugar a um hedonismo diferente, da obsessão pelo bem-estar e pelo desempenho — e mais individualista que nunca) e segue tentando reabilitar a Inveja como objeto de estudo, afinal, em que se baseia a publicidade desde os tempos primevos?
No final das contas, sim, estamos adentrando uma época de consumo paradoxal: consciente e hippie-sujo e extremamente individual. O grande truque de Lipovetsky foi fazer um texto paradoxal em si, e não tomar partido exceto pela seu otimismo que, confesso, me irritou por vezes.